Crônica de viagem | Caxias do Sul – São Paulo
Viajei de Caxias do Sul a São Paulo no sábado, 8 de novembro de 2025, um dia após um tornado atingir uma cidade de cerca de 14 mil habitantes, deixando seis mortos e aproximadamente dez mil pessoas desabrigadas, sem casas e sem bens.
Quem viveu as enchentes no Rio Grande do Sul e perdeu tudo entende o peso desse número. A perda é imediata, o impacto permanece. Dói até hoje.
Que Deus conforte essas famílias e as ajude a se reerguer.
Escrevo na madrugada do dia 9 de novembro para registrar uma travessia que mistura estrada, atenção constante e respeito por quem conduz vidas sobre rodas.
A saída de Caxias do Sul ocorreu às 14h20. O ônibus, em serviço semi-leito, oferecia conforto. Nas poltronas 19 e 20, eu e Alícia seguimos viagem.
O primeiro motorista conduziu o trecho até Lages. Para quem não conhece a região, o trajeto impõe atenção: curvas contínuas, trechos sem acostamento, paredões próximos à pista. Durante o percurso, recorri a óleos essenciais — lavanda e Balance — para conter a tensão.
A chegada a Vacaria marcou a transição para um cenário mais aberto. Depois, longas retas cercadas por pinheirais conduziram até Lages. O sentimento foi de alívio. O agradecimento ao primeiro motorista é necessário: chegamos em segurança.
A troca de motorista coincidiu com a mudança de paisagem. O sol apareceu por alguns instantes antes da chegada da noite. Vieram a chuva, novas curvas, subidas e descidas.
Dentro do ônibus, a rotina comum de uma viagem noturna: passageiros jogando no celular, outros navegando pelas redes, alguns tentando dormir. Um passageiro, desde Caxias, comprava salgadinhos a cada parada. Eu tentava descansar.
Do trecho entre Lages e Curitiba, o que prevaleceu foi a vigilância. Orei pelo motorista, pela condução segura de um veículo de grande porte em condições adversas. Em trechos de asfalto regular, o ônibus parecia flutuar; nos pontos esburacados, os solavancos interrompiam qualquer tentativa de sono.
Curitiba marcou mais uma etapa. Novas trocas, mais estrada pela frente, agora invisível na escuridão. A sensação é de dependência total de quem está ao volante.
Por volta das 2h38, ainda restavam cerca de seis horas de viagem. A chuva cessara. Um passageiro transferia dinheiro pelo aplicativo bancário para continuar jogando. Outros dormiam.
Após nova troca de motorista, a madrugada avançou. Às 4h15, a velocidade reduziu drasticamente — entre 20 e 40 km/h. A escuridão era total. A responsabilidade daquele condutor se tornava evidente.
Às 4h30, a velocidade voltou a aumentar. Um posto de combustível surgiu como referência em meio ao breu. O sinal de internet retornou: já estávamos em São Paulo. Próxima parada, Registro.
Às 5h40, no Graal, conversamos com o motorista. Ele explicou que a redução havia sido causada pela chuva intensa. A prudência evitou riscos. A parte mais tensa da viagem havia ficado para trás.
Após um café rápido e um agradecimento ao motorista, enviei mensagens para familiares que acompanhavam a viagem à distância. O descanso, finalmente, foi possível.
Com o amanhecer, surgiram a neblina e o tráfego intenso de caminhões na Régis Bittencourt. Entre as montanhas e o asfalto, o sentimento predominante foi de gratidão.
Chegávamos a São Paulo em segurança para um encontro esperado: abraçar a filha. Colo de mãe continua sendo o melhor abrigo.
A viagem termina com reconhecimento. Aos motoristas que cruzam a BR-116 diariamente, conduzindo passageiros em condições adversas, o respeito. E a fé permanece como companhia constante — a convicção de que Deus segue à frente, em cada quilômetro.
Para iniciar o dia, uma gota de Peppermint e outra de Wild Orange.
E o agradecimento final: obrigada, Deus.